Snu, uma epopeia aos nossos medos.

Não construo uma crítica a um filme com as classificações de 0 a 10, nem dando x estrelas, nem tão pouco soletrando “bom” ou “mau”. Aprendi isso no primeiro ano – quando andava a estudar cinema na universidade – enquanto me debatia sobre a importância e finalidade de uma recensão crítica. À época não louvava a ideia de escrutinar aspetos narrativos e técnicos, mas com o passar dos anos e com a experiência, fui-me apercebendo de que fazia algum sentido trabalhar as obras dos outros, para que elas não se encerre nelas próprias.

A reflexão sobre “Snu”, de Patrícia Sequeira, estreia esta coluna de opinião. E não podia pedir mais do que uma das melhores históiras de época, honrada nos palcos digitais pela brilhante Inês Castel-Branco, num tempo em que o cinema e todas as formas de representação audiovisual tendem a prestar culto a figuras históricas, sob forma de “biopics” (veja-se os casos internacionais de Mandela e Mercury).
O retrato de parte da vida de Snu Abcassis já não nos é estranho: foi uma das histórias integrantes da recente série “3 Mulheres”. Duas interpretações diferentes (Vitória Guerra na série) – diferentes, apenas, nenhuma melhor do que a outra. Ambas carregaram em si o peso de uma das histórias mais emocionantes a nível político que atravessou o país de norte a sul, numa época em que ansiava esperança democrática, plena de direitos e valores.
Mas se com a série pudemos ficar num êxtase moderado, que não nos levou ao seu final, em Snu – o filme, tivemos começar e acabar de um sonho, que passa demasiado depressa na tela e ficamos à espera de mais.

‘São vocês, meus queridos, a maior revolução acontecida em Portugal depois do 25 de abril’ – Natália Correia, sobre a relação de Snu e Sá Carneiro.


Se a história é arrebatadora do ponto de vista emocional, a interpretação e delicadeza de cada momento encenado mantém-nos essa premissa e transporta-nos tão facilmente para o mundo de Snu e Sá Carneiro, que vivemos aquela relação como se da nossa vida se tratasse.
Mais do que uma prova do cinema tão simples, puro e belo que conseguimos fazer em Portugal, é uma prova de as narrativas pessoais nos prendem em viagens mais contempladoras do que muitos guiões repletos de caros lubrificantes técnicos.

E, esta história, exorciza-nos os medos de ser e tentar, numa época de conflitos, de perda de direitos conquistados e de perda de confiança no único sentimento que pode salvar o mundo. Snu enfrentou isso e muito mais, e ficou connosco para a eternidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *